


entrevista Thiago millores
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1. Sua trajetória passa por concursos vocais, televisão, ensino de canto e por interpretações de artistas extremamente marcantes, como Freddie Mercury e Michael Jackson. O que mais te desafia quando você assume repertórios tão reconhecíveis e de personalidades tão fortes?
São várias dificuldades, mas acho que a principal delas é parte vocal. Eles eram cantores extraordinários e o meu timbre de voz está longe de ser idêntico ao deles, ai entra a importância de me preparar pra isso, pra quem acha que é só colocar o figurino e ouvir todos os discos está muito enganado: cada proposta é uma linguagem diferente.
Para minha sorte, antes de eu interpretar a obra desses artistas eu já era fã e já tinha uma boa noção de cada linguagem, sou antes de tudo um FÃ que DEPOIS se tornou um interprete (e não o contrário), o que torna tudo mais orgânico, natural e principalmente respeitoso.
2. Interpretar um artista tão conhecido quanto Freddie Mercury traz uma dificuldade particular: o público conhece cada detalhe das músicas, da voz e da presença de palco. Como você encontra o equilíbrio entre respeitar esse legado e não transformar sua interpretação em uma simples imitação?
Eu ouço Queen desde os 15 anos de idade, foi nesse período que minha jornada na música começou. E como fã eu sei exatamente o que ele pensa ao ver uma banda fazendo tributo ao seu artista favorito. Freddie tinha uma presença de palco marcante, e é aí que mora o perigo, há uma linha muito tênue entre homenagem e a caricatura.
Tantos anos consumindo a obra da banda (sobretudo os vídeos) me deram confiança e autonomia para saber o que funciona ou não, comecei de maneira muito empírica, mas hoje consigo dosar e fazer referências à muitas coisas (é o que a internet chama hoje chama de "fan service" - fazer o que o fã quer ver, mas sem ridicularizar). Os figurinos que eu uso são lindos, mas só fazem 20% do trabalho, sempre deixo claro que é uma celebração sob uma ótica de uma pessoa que é tão fã assim como aqueles que estão na plateia assistindo.
Em suma: esse equilíbrio vem da empatia de me colocar no lugar de quem está me assistindo.
3. Você foi campeão brasileiro do Karaoke World Championships, representou o Brasil no mundial e depois chegou à semifinal do Canta Comigo. O que essas experiências diante de públicos e avaliações tão diferentes ensinaram sobre a sua própria voz?
Antes dessas experiências que você citou, eu já tinha um envolvimento com música mas de maneira não-linear, após tantos anos fazendo isso você lida com dificuldades que fazem você repensar se vale à pena continuar ou não.
O Campeonato Mundial de Karaokê e o Canta Comigo, foram meus divisores de águas para que não desanimasse e continuasse minha jornada na música. Quando eu voltei de viagem do mundial, por exemplo, eu pensei: "Não posso voltar pra Química! Não tem mais volta! Eu sou bom nisso aqui! " (adendo: sou formado em técnico em química, exerci a função, fora outras profissões).
Ainda continuo no sonho de viver dignamente da minha vocação de verdade, que é a música.
4. Você faz muitas apresentações com a Hanna Paulino e também já participou duas vezes de shows do ShamAngra. O que essas parcerias acrescentaram à sua trajetória e como foi dividir o palco com shamangra?
Conheci a Hanna "Rainha de Wakanda" Paulino em 2020, e digo com todas as letras que ela foi a melhor coisa que me aconteceu naquele período tão tenebroso (e ainda é a melhor coisa). A amizade e a admiração por ela me trouxeram até o Shamangra, eu não esperava esse reconhecimento.
Essas experiências me reciclaram enquanto intérprete, muitos me conhecem cantando Queen, Michael Jackson etc., mas nunca tinha cantado metal na vida, por mais que eu goste do gênero e por mais que fosse um grande admirador do legado do Shaman e do Angra, achava um sonho distante interpretar essas músicas no palco.
Não posso deixar de mencionar a felicidade de dividir o palco com o Luis e Hugo Mariutti. Meu DVD do Ritual ficou cheio de buracos de tanto que eu assistia, os caras que eu via no DVD, de repente, estavam do meu lado.
Eu costumo dizer que sou um artista solo com ''S'' maiúsculo, o lado bom disso é que me permito fazer coisas diferentes e estimulantes. Por exemplo, recentemente fui convidado por uma orquestra sinfônica no Rio para interpretar músicas do Queen com eles, o que também foi um sonho realizado.
5. Além de intérprete, você desenvolve um trabalho como professor de canto. Como essa atuação foi se construindo ao longo da sua trajetória e o que você busca transmitir aos alunos para além da técnica vocal?
Me tornei professor de canto porque recebi uma oportunidade de um grande amigo (quero fazer uma menção honrosa ao Cristiano Gavioli), ele literalmente me pegou pela mão na época e falou: "Vamos trabalhar!".
Ser professor de canto me tornou um cantor mais consciente e responsável: me agregou muito.
Eu sempre procuro deixar claro para o aluno que a aula de canto serve pra gente usar o nosso instrumento com consciência e buscar resistência pra usá-lo de maneira saudável, e que esse aprendizado não é linear porque estamos lidando com um instrumento 100% humano, não é como corda de guitarra que quando enferruja a gente tem que comprar outra.
O que eu disse pode ser óbvio, mas muitos se esquecem, sempre procuro quebrar aquela ideia de excelência e perfeição, a excelência vem, mas não de uma hora pra outra. Bato veementemente nessa tecla porque somos bombardeados de informações o tempo inteiro e isso dá uma falsa sensação de "performance". Não faça para suprir expectativas alheias.
6. Hoje, quais são os caminhos, projetos e ambições que você ainda quer apresentar ao público como artista?
Quero continuar lecionando canto, prestar colaborações e fazer bastante shows nesse segundo semestre.
Freddie Mercury completa 80 anos em setembro, então os shows que faço homenageando o Queen tem um sabor especial nesse ano de 2026, quero dar uma atenção especial a isso pois os fãs do Freddie merecem.