


entrevista vocifer
lucas mariano
1) Qual a história da banda até o momento?
A Vocifer nasceu no Tocantins em meados de 2014, surgindo inicialmente da vontade de João Noleto e Lucas Lago de criar uma banda de heavy/power metal que possuísse uma identidade própria. Através de conversas informais entre amigos, a ideia central que daria origem aos conceitos das primeiras composições começou a surgir e, em 2017, Pedro Scheid entra na banda auxiliando nos trabalhos iniciais e composições.
O processo de construção da identidade da banda foi gradual. Através de pesquisas e conversas surgiu a percepção de que o Brasil possuía um patrimônio mitológico e cultural extremamente rico, mas pouco explorado dentro do heavy metal. Enquanto muitas bandas abordavam vikings, guerreiros medievais ou lendas europeias, a Vocifer passou a enxergar nos mitos amazônicos uma fonte inesgotável de inspiração.
Após anos de composição e amadurecimento musical, em 2020, sob produção do renomado Thiago Bianchi, a banda lançou seu primeiro álbum, “Boiuna”, um trabalho conceitual inspirado na lenda da gigantesca serpente presente no imaginário dos povos amazônicos e ribeirinhos. O disco chamou atenção justamente por apresentar uma proposta incomum dentro do metal brasileiro, unindo peso, técnica e uma narrativa profundamente conectada à cultura regional. Na etapa de pós-produção e lançamento, o guitarrista Gustavo Oliveira integra a banda para contribuir também com suas influências e técnica.
A repercussão de “Boiuna” ultrapassou as fronteiras nacionais. O álbum recebeu atenção de ouvintes e veículos especializados em países como Alemanha, Polônia, Suécia e outras regiões da Europa, mostrando que a cultura amazônica possui alcance universal quando apresentada de forma autêntica. Nesta oportunidade também, pouco antes do lançamento do disco, a banda realizou a turnê juntamente com a Noturnall, Mike Portnoy e Edu Falaschi, tocando em algumas cidades brasileiras como Brasília e Goiânia.
Em março de 2020, a banda realizou o show de lançamento do disco em seu estado natal, Tocantins, porém devido a pandemia, a continuidade de shows foi interrompida. Mesmo enfrentando as dificuldades impostas pelo estado pandêmico logo após o lançamento do disco, a banda continuou trabalhando intensamente na divulgação do material e na composição de novas músicas. Esse processo culminou no lançamento do segundo álbum, em 2023, “Jurupary”, também produzido por Thiago Bianchi e considerado por muitos um passo adiante em termos de produção, composição e ambição artística.
Com “Jurupary”, a Vocifer aprofundou ainda mais sua proposta conceitual, transformando mitos amazônicos em uma narrativa contínua e cinematográfica. O disco contou com participações especiais importantes: Tambores do Tocantins na faixa We are, Daísa Munhoz em Wings of Hope, Daniel Mazza em Vanity in Disguise, Thiago Bianchi em To be Alive, Fabio Laguna na orquestração de todo o disco (Fabio já havia participado em duas faixas do disco Boiuna) e inclusive, tivemos a participação mais que especial de Luís Mariutti na faixa Life.
A divulgação de “Jurupary” se deu através do lançamento de vários materiais como clipes e lyric videos, e em janeiro de 2024 a banda fez sua participação no evento do Shamangra, em São Paulo, um marco na história da Vocifer. Desde então, realizando vários eventos no seu Estado a banda contou com participações de Carlos Zema e Marcelo Pompeu, efetivando nessa época o baterista Richard Rodrigues.
Hoje a Vocifer segue expandindo seu alcance internacional, levando a cultura amazônica e tocantinense para públicos de diferentes países e demonstrando que o heavy metal pode servir também como ferramenta de preservação cultural e valorização das tradições brasileiras, planejando também seus próximos passos e materiais.
2) Qual a importância da identidade Tocantinense e amazônica presente no trabalho de vocês?
Vivemos em uma região marcada por histórias ancestrais, pela presença de povos originários, por manifestações culturais únicas e por uma relação intensa com a natureza. Entretanto, grande parte desse patrimônio ainda é pouco conhecido no restante do Brasil e principalmente no exterior.
Ao incorporar e buscar inspiração em lendas que permeiam as histórias envolvendo a Boiuna e o Jurupary em nossas músicas, estamos contribuindo para a divulgação de narrativas que fazem parte da memória coletiva dos povos da Amazônia. Diante da riqueza histórica e cultural, através de uma extensa e dedicada pesquisa, nós buscamos estudar, compreender e apresentar tudo isso com o máximo respeito para demonstrar a relevância desses assuntos.
Existe também uma questão de representatividade. O metal brasileiro frequentemente é associado aos grandes centros urbanos do Sudeste. Mostrar que uma banda do Tocantins pode dialogar com o mundo sem abandonar suas raízes é algo extremamente importante para nós.
A identidade amazônica e sua cosmogonia presente em nosso trabalho demonstra que o metal não precisa abrir mão de sua universalidade para ser regional. Na verdade, acreditamos que quanto mais verdadeira for a identidade de uma banda, maior será sua capacidade de se conectar com diferentes públicos.
3) Como foi abrir o show para a banda Shamangra?
Abrir um show para uma banda ligada ao universo do Shaman e do Angra representa um marco importante para qualquer grupo de power metal brasileiro.
Além da admiração que sempre existiu pela trajetória desses músicos, existe também uma conexão construída ao longo dos anos através do produtor Thiago Bianchi e de outros profissionais ligados ao cenário nacional. Muitos dos artistas que admirávamos desde a adolescência acabaram conhecendo nosso trabalho e reconhecendo o valor da proposta que desenvolvemos.
Subir ao palco diante de um público acostumado a grandes nomes do metal nacional foi uma experiência de enorme responsabilidade. Ao mesmo tempo, serviu como confirmação de que estávamos no caminho certo.
Foi um momento especial não apenas pela oportunidade de tocar para um público maior, mas também porque simbolizou o reconhecimento de anos de trabalho, estudo e dedicação. Esperamos que esse reencontro ocorra o mais breve possível.
4) Qual o futuro da banda? Quais os projetos e shows?
Atualmente estamos totalmente concentrados na composição de um novo trabalho inédito. Já temos uma nova história definida e estamos na etapa de pré-produção, aquele período em que as músicas ainda estão ganhando forma, os arranjos vão sendo construídos e começamos a entender qual será a identidade e o tom do próximo disco.
5) Qual é a formação da banda atualmente?
A formação atual da Vocifer conta com:
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João Noleto – vocais;
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Lucas Lago – baixo;
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Pedro Scheid – guitarra;
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Gustavo Oliveira – guitarra;
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Richard Rodrigues – bateria.
Cada integrante contribui não apenas musicalmente, mas também na construção conceitual do universo artístico desenvolvido pela banda.
6) Qual a importância da preservação da cultura Amazônica e brasileira no geral para o heavy metal mundial?
O heavy metal sempre dialogou com identidades culturais fortes. Bandas escandinavas exploram mitologias nórdicas, grupos japoneses incorporam elementos de sua tradição e artistas do Oriente Médio utilizam referências de suas próprias culturas.
O Brasil possui uma riqueza cultural gigantesca, mas ainda pouco explorada internacionalmente. Quando uma banda brasileira leva para o metal elementos amazônicos, indígenas e regionais, ela amplia as possibilidades criativas do gênero.
Além disso, preservar a cultura amazônica significa preservar histórias, idiomas, crenças e conhecimentos que fazem parte da humanidade como um todo.
A Amazônia não é importante apenas para o Brasil. Ela possui relevância global. Por isso acreditamos que apresentar essas narrativas através da música é uma forma de contribuir para sua valorização e preservação.
7) Os integrantes da Vocifer têm o hábito de leitura? O que cada um tem o costume de ler?
João Noleto se entretém com mangás, quadrinhos e livros sobre astronomia, previsões e reflexões acerca do mundo. Recomendações: A graphic Novel Homem Aranha: A última caçada de Kraven, Stephen Hawking: Breves Respostas para Grandes Questões e O Mundo Assombrado Pelos Demônios do Carl Sagan.
Pedro Scheid foi mais assíduo com a leitura na juventude, se entretendo com vários clássicos e mantendo um grande acervo na estante do seu quarto. Hoje suas leituras se resumem a conteúdos técnicos e jurídicos devido ao trabalho, e hora ou outra intercala com algum livro estrangeiro. O último livro que leu foi O Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas e recomenda as seguintes obras: A Batalha do Apocalipse, de Eduardo Spohr e O Nome do Vento, de Patrick Rothfuss.
Richard Rodrigues admite que não é um leitor assíduo, embora, por causa da profissão, busca leituras de artigos científicos sobre musculação e fisiologia do exercício. Além disso, é um entusiasta da história, buscando sempre a leitura de artigos, revistas e livros sobre temas do Egito antigo, da segunda guerra mundial dentre outros. Uma sugestão de leitura é a biografia de Gene Simmons, do Kiss.
Gustavo Oliveira tem gostos para leitura específicos, sempre foi fascinado em temas voltados à metafísica e esoterismo, tendo por destaque obras como “A unidade Transcendente das Religiões”, e “O Livro Tibetano dos Mortos”, além de diversos textos que tratam do hermetismo. Também é um grande admirador das obras de Carl Jung, em especial “Aion”. Gosta de ler mangás, sendo um de seus preferidos “Oyasumi Punpun”, e seu romance preferido é “Valis”, de Philip K. Dick.
Lucas Lago:Já li bastante ficção científica, principalmente por gostar de histórias que exploram futuros possíveis e diferentes formas de enxergar o mundo. Também sou fã de obras de terror, especialmente autores como Stephen King, que conseguem misturar suspense, tensão e reflexões sobre a natureza humana. Hoje, com a correria do dia a dia, acabo consumindo mais séries e filmes. Quando paro para ler, normalmente busco conteúdos sobre design, comunicação, criatividade e cultura, assuntos que fazem parte do meu trabalho e também dos meus interesses pessoais.
8) Qual o hobby de cada integrante?
João Noleto: Meu hobbie é jogar Pokémon TCG, eu coordeno uma Liga Pokémon em Palmas há 10 anos, mas jogo desde os 10 anos de idade. Além disso sou karateca também, cheguei a competir em torneios nacionais, ganhei alguns pódios, mas estou com treinos interrompidos por enquanto.
Pedro Scheid: Gosto muito de praticar esportes ao ar livre. Tenho rotinas de treino de corrida, natação e ciclismo. Nossa região tem vários locais legais e de contato com a natureza que favorecem isso. Além disso, sou um jogador de RPG de mesa, especialmente D&D 5e, e semanalmente me encontro com meus colegas para jogar. Por fim, ultimamente tenho estudado muito sobre Xadrez, sendo o primeiro jogo de tabuleiro que aprendi na infância e que até hoje me desperta curiosidade.
Richard Rodrigues: Sou cinéfilo de carteirinha, então, foco nos lançamentos de filmes e séries. Sou amante do terror, tendo maratonado praticamente todos os filmes do gênero. Além disso, gosto muito de desenhar, mesmo não tendo muito tempo para isso ultimamente. Ainda entre meus hobbies, está o vôlei, fui professor da modalidade e aos fins de semana gosto de jogar com os amigos
Gustavo Oliveira: Devido à rotina apertada, o pouco que pude inserir foi a musculação, algo que comecei por saúde e acabei pegando gosto, e também cheguei a treinar um pouco de jiu-jitsu, mas tive que parar os treinos por enquanto, espero poder retornar assim que possível. Também gosto bastante de meditar, algo que, para mim, é um momento de descanso mental, portanto faço questão de poder realizar religiosamente essa prática todos os dias.
Lucas Lago: Meu hobby é viver novas experiências e colecionar histórias. Gosto de sair, conhecer pessoas e sentar em um bom boteco, daqueles onde a conversa rende aprendizados inesperados. Tenho um carinho especial por ouvir os mais velhos e suas histórias de vida, que carregam muita sabedoria. Também gosto de escutar brega, um gênero que retrata com autenticidade as vivências e emoções do interior onde cresci.
Quando não estou nessa busca por boas conversas e novas histórias, me dedico ao esporte. Sou atleta híbrido: treino musculação, pratico boxe e gosto de jogar basquete nas quadras da cidade. Para mim, o equilíbrio entre cultura, convivência e atividade física é o que torna a vida mais interessante.
9) Estão para gravar um novo álbum. Como estão as gravações? Quando pretendem lançar?
Enquanto avançamos na pré-produção do próximo álbum, também estamos preparando o lançamento de um EP chamado "Norte". Neste trabalho, faremos uma homenagem a compositores do nosso estado, reinterpretando algumas de suas canções dentro da linguagem da banda. Além disso, o EP contará com uma faixa inédita, composta ainda na época do "Boiuna". O primeiro single será uma versão de "Coco Livre S/A", do compositor Genésio Tocantins, que vocês já podem conferir nas plataformas digitais. A previsão é que o EP chegue ao público em outubro deste ano. Também será realizado um show de lançamento desse EP em Palmas.
10) Qual o lugar mais especial que a Vocifer já tocou até hoje?
Sem dúvidas na AUDIO na festa da firma, foi provavelmente o momento mais apoteótico da nossa carreira. Nessa oportunidade, tivemos contato com nossos ídolos musicais e criamos muitos laços e amizades, além de novos fãs e admiradores. Foi muito importante para nós acompanhar os bastidores e se envolver com o trabalho de grandes bandas, que servem de inspiração e que nos motivam ainda mais a ir atrás de nossos sonhos e continuar crescendo musicalmente.
Mas também vale ressaltar o show de lançamento do BOIUNA em Palmas em março de 2020, em que íamos apresentar nosso álbum pela primeira vez no nosso Estado. Inicialmente fomos desacreditados por produtoras locais, mas isso não impediu de corrermos atrás e com a produção 100% nossa colocamos mais de 400 pessoas na casa. Infelizmente, foi no último fim de semana antes do lockdown pela pandemia.
11) Alguma curiosidade sobre a banda ou algum integrante que vocês possam contar?
Ao longo da trajetória da Vocifer, todos os integrantes já viveram muitas histórias marcantes juntos. Como toda banda independente que batalha por um espaço no Brasil, já passamos por praticamente todo tipo de situação: viagens longas e cansativas, perrengues em estrada, problemas técnicos em shows, mudanças de setlist, enfim, várias situações e muitos momentos engraçados de bastidores.
Mas ao mesmo tempo, são justamente essas experiências que criam os momentos mais especiais. Já tivemos situações muito legais com fãs que chegaram para contar como conheceram um pouco mais da cultura amazônica através das nossas músicas, pessoas de outros estados — e até de outros países — dizendo que foram pesquisar sobre as lendas brasileiras depois de ouvir os discos da banda. Isso é algo muito gratificante para nós, porque mostra que a música realmente consegue atravessar fronteiras.
Uma curiosidade interessante é sobre o próprio nome da banda. Desde o começo queríamos que o nome tivesse alguma ligação com alguma ave. Inicialmente pensamos em nomes ligados à Harpia, por ser uma ave extremamente simbólica da Amazônia, mas já existiam alguns projetos utilizando esse nome.
Foi então que chegamos em “Vocifer”, inspirado em Haliaeetus vocifer, nome científico da águia-pescadora africana. A palavra chamou atenção imediatamente porque carregava vários significados que combinavam perfeitamente com a proposta da banda. Além da relação com uma ave pescadora — algo que remete simbolicamente à ideia de buscar, perseguir e “pescar” sonhos e objetivos — o próprio som da palavra lembra “vociferar”, gritar, bradar, colocar a voz para fora. Isso tem tudo a ver com a energia do rock e do heavy metal.
No fim, acabou sendo um nome que reuniu exatamente tudo aquilo que buscávamos: força, identidade, natureza, simbolismo e intensidade.